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O ano não começa no calendário: como o estado interior de onde decidimos molda escolhas, estratégias e futuros possíveis.

Homem sentado em silêncio no topo de uma colina ao amanhecer, observando o nascer do sol sobre um vale com névoa e montanhas, simbolizando reflexão e consciência.

O calendário virou. E, como acontece todos os anos, o tempo parece nos empurrar para frente: novos planos, novas metas, novas promessas.

Ainda assim, talvez valha uma pausa antes de seguir.

Porque o ano não começa quando a data muda. Ele começa quando algo mais profundo se transforma: o estado de consciência com que entramos no tempo.

Seguimos dizendo que “este ano será diferente”, enquanto muitas decisões continuam sendo tomadas do mesmo lugar interno: apressado, reativo, capturado pela urgência. Quando o ponto de partida não muda, o futuro até avança, mas raramente se transforma.

Todo futuro que criamos, pessoal, organizacional ou coletivo, nasce do lugar a partir do qual escolhemos. Não das metas que escrevemos, mas da qualidade de presença que sustenta cada decisão.

Talvez este início de ano não peça mais respostas. Talvez peça consciência suficiente para perceber de onde estamos tentando criar o que vem pela frente.

O erro silencioso de todo início de ano

Todo início de ano carrega uma promessa implícita de recomeço. Novas agendas, novos ciclos, novas intenções.

Mas há um erro silencioso que se repete justamente por não parecer erro.

Entramos no ano novo fazendo mais planos, quando o que ainda não foi feito é mudar o lugar interno de onde planejamos.

Seguimos acreditando que o problema está na qualidade das metas, na falta de foco ou na disciplina insuficiente. Raramente consideramos que muitas decisões continuam nascendo do mesmo estado interno: pressa acumulada, respostas automáticas, expectativas herdadas, medo de não acompanhar o ritmo.

Quando isso acontece, o futuro até muda de forma, mas não muda de natureza.

Metas novas. Consciência antiga. O resultado costuma ser uma repetição sofisticada, mais organizada, talvez mais eficiente, mas não necessariamente mais significativa.

Janeiro costuma ser tratado como um botão de reinício. Mas a vida não funciona assim. O que não foi elaborado no ciclo anterior retorna. O que não foi integrado pede passagem. O que foi apenas empurrado reaparece com outro nome.

Aqui está o ponto central: não erramos por falta de planos; erramos por começar do mesmo lugar.

Enquanto o fazer corre à frente do ser, seguimos ocupados demais para perceber que estamos apenas reorganizando o conhecido, não criando algo verdadeiramente novo.

Talvez o gesto mais honesto deste início de ano seja reconhecer isso sem culpa. Não para paralisar, mas para reposicionar o ponto de partida.

Consciência como origem da decisão

Quando falamos em consciência, é comum confundi-la com introspecção excessiva, pausa longa ou afastamento da ação. Como se tornar consciente significasse desacelerar demais ou perder efetividade.

Mas consciência não é recuo. É origem.

Ela não substitui a decisão. Ela qualifica o lugar de onde a decisão nasce.

Toda escolha, mesmo a mais técnica, carrega um estado interno: pressa, medo, clareza, presença, ambição, cuidado. Esses estados não aparecem nos relatórios nem nas planilhas, mas organizam silenciosamente aquilo que decidimos priorizar, sustentar ou abandonar.

Agimos como se decisões fossem apenas racionais. Mas, na prática, muitas delas são respostas automáticas a contextos que não paramos para perceber.

Consciência é esse gesto anterior à escolha: perceber o que nos move antes de agir. Não para julgar, mas para assumir responsabilidade.

Quando isso não acontece, a ação até continua, porém guiada por condicionamentos antigos. Reagimos ao que chega, repetimos fórmulas conhecidas, aceleramos para não sentir a insegurança de não saber. E chamamos isso de eficiência.

A consciência muda essa equação.Não promete controle, mas oferece presença suficiente para escolher.

É como preparar o solo antes de plantar. A semente pode ser boa, o plano pode ser correto, mas é o solo invisível, silencioso, que define o que de fato floresce.

Por isso, consciência não é um luxo filosófico nem um intervalo entre decisões importantes. Ela é o fundamento invisível que sustenta todas elas.

Como observa Otto Scharmer, “a qualidade dos resultados que criamos em um sistema depende da qualidade da atenção que as pessoas envolvidas trazem para a situação”. [1] Antes de qualquer plano, há sempre um estado de presença em jogo.

Janeiro como germinação (e um gesto para sustentar o início)

Costumamos tratar janeiro como um mês de cobrança antecipada. Resultados a alcançar, direções a definir, ritmo a sustentar desde o primeiro dia.

Mas a vida não começa assim.

Na natureza, os inícios são silenciosos. Sementes não rompem a terra sob pressão. Elas respondem a condições: solo, tempo, cuidado. Há um intervalo invisível entre o plantio e o broto, e esse intervalo não é atraso, é processo.

Talvez o início do ano funcione da mesma forma.

Quando transformamos janeiro em um mês de cobrança, perdemos a chance de fazer algo mais fundamental: ajustar o eixo. Escutar. Perceber. Reposicionar. Não para adiar decisões, mas para permitir que elas nasçam de um lugar mais íntegro.

O mundo pede velocidade. A vida pede ritmo.

Ritmo não é lentidão. É coerência entre movimento e sentido. É saber quando avançar e quando sustentar.

Nesse contexto, talvez não seja necessário um método, uma prática elaborada ou um novo sistema. Talvez baste um gesto simples, sustentado no tempo.

Uma pergunta: De que lugar interior eu estou tentando criar o que vem pela frente?

Não é uma pergunta para respostas rápidas. Ela pode aparecer antes de uma decisão importante, no início de uma conversa difícil, ou no momento em que a pressa pede ação imediata.

A força dessa pergunta não está na resposta que produz, mas na interrupção que provoca. Ela cria um pequeno espaço entre o impulso e a escolha. E, nesse espaço, algo muda.

Sustentar esse gesto não exige mais tempo na agenda. Exige mais atenção ao ponto de partida.

Onde, de fato, um ano começa

Há muito tempo, Peter Drucker nos lembra que o futuro não se prevê, se cria. [2] O que raramente discutimos é a partir de que estado de consciência estamos tentando criá-lo.

Talvez o início de um novo ano não precise de mais esforço, mais controle ou mais respostas imediatas. Talvez precise de algo mais discreto e mais exigente.

Consciência.

Porque o ano não começa quando o calendário muda. Ele começa quando mudamos o estado de consciência com que entramos no tempo.

É desse lugar que nascem as escolhas. É desse lugar que se formam as estratégias. É desse lugar que se criam (ou se repetem) os futuros possíveis.

Talvez 2026 não peça mais planos. Talvez peça mais presença.

Presença suficiente para perceber de onde escolhemos. Presença suficiente para sustentar perguntas antes de respostas. Presença suficiente para criar, com responsabilidade, o que ainda não existe.

Porque todo futuro desejável começa assim: não no calendário, mas na consciência que orienta cada escolha.

Referências:

[1] SCHARMER, Otto. Teoria U: como liderar a partir do futuro que emerge. São Paulo : Elsevier, 2010.


[2] DRUCKER, Peter F. Desafios gerenciais para o século XXI. São Paulo : Pioneira Thomson Learning, 2001.

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